Frame II: Crimson Butterfly Remake (análise) | Survivor horror inquietante
- por Vítor Leal
- 4 de abril, 2026
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As minhas primeiras experiências no âmbito dos jogos de terror, ou “survival horror” se preferirem este termo mais específico, aconteceram nas consolas. Há dois jogos que recordo perfeitamente para a Sega Saturn. D e The Mansion of Hidden Souls. Seguiu-se Resident Evil, nas suas múltiplas vertentes, por vezes com maior incidência no survival, outras vezes mais moldado à acção. Curiosamente, é neste reduto que vai ganhando ênfase o nome Fatal Frame, com destaque para a sequela Fatal Frame II: Crimson Butterfly. Lançado na Europa em 2004 para a PlayStation 2 e com port para a Xbox, a consola da Microsoft, concentrou as atenções ao inscrever uma narrativa bastante consistente, num ambiente aterrador e com recurso a um método de combate particularmente interessante, a “camara obscura”.
Não tendo jogado o original da PS2 ao tempo do lançamento europeu, só anos mais tarde tomei o primeiro contacto com a série, ao jogar Project Zero 2: Wii Edition, no essencial uma espécie de versão remasterizada da versão japonesa de Fatal Frame II. Quase 14 anos após esse contacto que boas impressões me transmitiu, recebi de bom grado a versão remake (PS5 - aqui testada, PC e Xbox Series X/S) de Fatal Frame II: Crimson Butterfly.
Apesar dos 16 anos passados, boa parte das memórias que guardei dessa experiência para a Wii recrudesceram aos meus sentidos ao jogar esta versão moderna. É inevitável o desconforto e a sensação de medo que um jogo deste cariz nos transmite quando mergulhamos em pleno luar para segurar com o comando as rédeas da nossa personagem que se aventura por espaços lúgubres e sombrios, num ambiente realmente tenso, onde o pesadelo parece tocar na sua raíz e cada sonoridade ou súbito impacto de um espectro nos deixa prensados na cadeira. Se o original era bom, este remake torna-o ainda melhor. Ao cabo das minhas quase 20 horas de jogo até ao primeiro dos seis finais existentes (a Tecmo Koei juntou mais dois finais aos quatro inicialmente existentes), posso assegurar que este é um dos meus jogos de survival favoritos de sempre.
Versão testada: PS5
Outras versões: Nintendo Switch 2, PC e Xbox Series
Género: Terror
O regresso ao local do ritual macabro
Se não puderam jogar o original e mesmo que o possam fazer, a experiência ainda é muito princípios de 2000, o que num jogo 3D, com ambientes escuros, sonoridades e contrastes que podem ir muito mais longe com as tecnologias actualmente disponíveis, acaba por reforçar a estrutura e tornar o objectivo inicial mais apelativo. Exceptuando os loadings de início de jogo e após a morte, que ainda permanecem algo demorados, no resto parece que estamos perante um outro jogo, ou até mesmo um jogo novo. Dei por mim a recordar algumas batalhas, outras já tinha esquecido, mas acabei por sentir mais tensão desta vez.
Nos corredores e nas escadas escuras das casas japonesas tradicionais, a escassez de luminosidade só pontualmente é interrompida pela luz trémula e cintilante da lanterna que Mio transporta. A perspectiva na terceira pessoa garante algum distanciamento e capacidade de manobra, podendo a gémea correr sem perder resistência enquanto não encontrar algum espectro. No entanto, para sobreviver com a irmã Mayu e escapar ao ritual ancestral, terá de confrontar e vencer os espectros colocados no seu caminho.
A narrativa é suficientemente apelativa e cedo somos confrontados com a iniciação de um ritual que teve lugar no mesmo território, muitos anos antes. É um pouco como a narrativa do filme Shining. As novas personagens regressam ao local do crime e como que reinterpretam os acontecimentos do passado. Aliás, é abundante o número de notas e cadernos que encontramos pelo caminho, adensando o mistério e a sórdida prática que ali teve lugar. Há também um conjunto de “side stories” que vale bem a pena acompanhar, resultando daí algumas reviravoltas e surpresas do que tínhamos por assente em certas personagens.
À procura do ângulo perfeito
Se em grande parte dos momentos passados no jogo há uma disposição para percorrer casas e espaços exteriores ligados entre si, passando pelos espectros sem causar ruído ou escondendo-se em pequenos abrigos nas paredes onde a protagonista e a sua irmã não podem ser vistas, é inevitável o confronto com os espectros. Para vencer estas criaturas aprisionadas no tempo, Mio terá de recorrer à Câmara Obscura, uma espécie de arma utilizada para “ferir de morte” os fantasmas, anulando-lhes a carga vital. No entanto, a utilidade desse aparelho fotográfico, vai bem para lá dos confrontos. Pode registar espectros não agressivos e ajudar a descobrir mais elementos sobre o passado e outras minudências dos locais. Pode também, com recurso a fotografias antigas, modificar algumas áreas, voltando a colocar uma ponte ou uma estante de livros em sítios que actualmente perderam esse arranjo. Um último filtro habilita a abertura de portas fechadas, desde que marcadas com sangue. É uma mecânica apelativa que apela a diferentes utilizações.
A exploração e recolha de objectos cintilantes é uma componente essencial da experiência. Não só conseguimos adquirir mais filmes para disparar na câmara como podemos encontrar itens necessários à recuperação de saúde, ao fortalecimento de alguma habilidade ou mesmo ao upgrade da máquina fotográfica. É possível através deste sistema melhorar o foco e o raio de acção do aparelho, o que permite uma captura mais firme, rápida e danosa dos espectros.
Quando focado o rosto de uma destas criaturas, os danos são severos, daí a utilidade em ter o aparelho bem actualizado. Ao longo dos nove capítulos a dificuldade cresce, embora algumas batalhas possam causar uma sensação de repetição, especialmente nas criaturas que tendem a aparecer “pelo meio” de modo a criar um pouco mais de dificuldade. Já as boss fights são muito boas, com destaque para uma certa mutação do espectro quando é atingido em mais de metade da sua barra, o que torna a tarefa de o vencer ainda mais exigente. A tendência é para a captura do ângulo perfeito para maior dano, embora a janela de execução seja de fracções de segundos.
8/10
Veredicto
Tantos anos depois, é interessante voltar a descobrir como Fatal Frame II Crimson Butterfly permanece como uma experiência deveras bem conseguida no quadro dos jogos de “survival horror”. Com destaque para uma narrativa que nos inquieta e adensa o mistério ao longo de 9 capítulos percorridos em quase duas dezenas de horas de jogo, é sobretudo pelo ambiente tenso, sombrio e perturbador, entre segmentos de exploração e momentos de maior intensidade horrífica e confronto, que a experiência atinge o auge. Tendo jogado ou não os anteriores, voltar a sentir o ambiente aterrador e confrontar aquelas criaturas que parecem repousar ali num ritual que se repete é uma proposta irrecusável.
Vítor Leal
Vítor é um jogador de longa data, com especial interesse por jogos de corridas e uma forte ligação à série Gran Turismo. Acompanha de perto a evolução da indústria, mantendo um equilíbrio entre o apreço pelos clássicos e a atenção às novas tendências e experiências criativas. Fora do gaming, dedica-se à corrida de longa distância, sendo praticante de maratonas
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