Dispatch (review) | Narrativa surpreendente de super-heróis
- por Jorge Loureiro
- 5 de fevereiro, 2026
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Dispatch acabou por se tornar um dos meus jogos favoritos de 2025, ainda que, sendo honesto, só o tenha terminado já em 2026. O jogo andava há algum tempo na minha lista de pendentes, mas o recente lançamento da versão para a Nintendo Switch 2, curiosamente com algum conteúdo censurado, foi o empurrão final para abrir a carteira e comprá-lo no Steam.
A coincidência foi perfeita: tinha acabado de adquirir uma Steam Deck, o que transformou a experiência numa junção do útil ao agradável. Pela sua estrutura episódica, quase ao estilo de uma série, e pelas reduzidas exigências técnicas, Dispatch encaixa na perfeição numa experiência de jogo em formato portátil.
Plataforma testada: PC (Steam)
Também disponível para: PS5, Switch 2
Tempo para acabar: 8 horas
Uma herança narrativa bem conhecida
Se alguma vez jogaste um título da Telltale Games, vais reconhecer imediatamente o estilo de jogo. E não é por acaso. O AdHoc Studio foi fundado por veteranos da Telltale, juntamente com produtores que passaram por estúdios como a Ubisoft e a Night School Studio.
O resultado é um estúdio recheado de talento, com profissionais que estiveram envolvidos em jogos aclamados como The Walking Dead, The Wolf Among Us e Tales from the Borderlands, influência que se sente claramente na estrutura narrativa e nas escolhas apresentadas ao jogador.
Embora tenha de admitir que, a certa altura da minha carreira no jornalismo de videojogos, me senti algo cansado da estrutura típica dos jogos da Telltale, muito por culpa da forma como o estúdio acabou por saturar o mercado com demasiados lançamentos num curto espaço de tempo, Dispatch revelou-se uma verdadeira lufada de ar fresco.
Crédito da imagem: AdHoc Studio
História, escolhas e consequências
É uma experiência essencialmente narrativa, onde as escolhas de diálogo influenciam o rumo da história, mas que consegue equilibrar isso com uma jogabilidade suficientemente sólida para nos manter agarrados do início ao fim.
A nossa personagem é Robert Robertson, uma espécie de Iron Man. Um herói que nasceu sem poderes, mas que combate super-vilões recorrendo a um fato robótico extremamente avançado. O problema é que, após um confronto particularmente violento, o seu fato fica completamente destruído, obrigando Robert a fazer um acordo com a SDN (Superhero Dispatch Network).
O acordo é simples: Robert passa a assumir o papel de dispatcher, alguém responsável por gerir e coordenar uma equipa de super-heróis, enquanto a SDN trata da reparação do seu fato.
É assim que acaba preso a um grupo de “heróis” que de heróico têm muito pouco. Na realidade, tratam-se de antigos super-vilões reconvertidos, que se dão pessimamente entre si. Esta tensão reflete-se diretamente na jogabilidade, com personagens que podem simplesmente recusar-se a cumprir certas ordens, forçando-te a escolher outra alternativa para lidar com a situação.
Crédito da imagem: AdHoc Studio
Um universo familiar, mas com identidade própria
O jogo faz um excelente trabalho a construir um universo que bebe de várias referências, seja da Marvel ou de animes como My Hero Academia, mas sem nunca cair na sensação de um plágio barato. Dispatch tem identidade própria, muito graças às suas personagens, que transbordam personalidade e ajudam a dar vida a este mundo peculiar.
A dar ainda mais vida às personagens está um elenco de vozes de luxo, que faz um trabalho verdadeiramente notável. Aaron Paul dá voz a Robert Robertson, trazendo-lhe uma carga emocional e um timing cómico que resultam muito bem, enquanto Laura Bailey, Erin Yvette, Jeffrey Wright e Matthew Mercer ajudam a elevar o conjunto com interpretações cheias de personalidade.
Apesar do aspeto cartoon dos visuais, importa sublinhar que este é claramente um jogo para adultos, com cenas de violência explícita e nudez, ainda que grande parte destas situações exista sobretudo para efeito cómico.
Quando as escolhas realmente pesam
Este trabalho de voz acaba por ter um impacto direto no peso das escolhas que fazemos ao longo do jogo. As decisões deixam de ser simples linhas de diálogo num menu e passam a ser momentos carregados de intenção, emoção e, muitas vezes, de desconforto.
Episódio após episódio, vamos criando uma ligação a este grupo de personagens, ao ponto de, quando o jogo nos coloca perante decisões difíceis, existir um verdadeiro conflito interno sobre que caminho seguir.
Há muitos jogos que nos permitem fazer escolhas, mas poucos conseguem transmitir emoções para lá do ecrã. Dispatch é claramente um desses casos.
Jogabilidade: simples, mas eficaz
Nas secções de jogabilidade, Dispatch aposta numa abordagem simples à primeira vista, mas que consegue transmitir muito bem a sensação de urgência e a dificuldade inerente à gestão de recursos.
Nestas partes, somos apresentados a um mapa da cidade onde os problemas vão surgindo de forma dinâmica, assinalados por diferentes pontos. Cada conflito tem um limite de tempo para ser resolvido, o que obriga a tomar decisões rápidas e ponderadas.
A complexidade surge quando percebemos que cada super-herói tem um tempo de deslocação até ao local do incidente e, depois de cada missão, precisa de um período de descanso. Isto significa que uma má decisão pode não só comprometer um conflito específico, como deixar outros problemas sem resposta.
Crédito da imagem: AdHoc Studio
Esta camada de gestão revela-se particularmente desafiante no início do jogo, quando ainda não tens os super-heróis evoluídos. À medida que ganham experiência e sobem de nível através das missões, tornam-se mais eficazes, mas até lá é preciso aprender a lidar com as limitações e a dominar as mecânicas deste sistema.
Isto torna-se ainda mais relevante quando os heróis falham na resolução de um conflito. Nessas situações, podem sair lesionados e ficar comprometidos para o resto do turno. Alguns episódios do jogo estão divididos em dois turnos, manhã e tarde, enquanto outros decorrem apenas num único turno, o que faz com que cada erro tenha um peso real na gestão do dia.
No final de cada missão, o jogo apresenta um ecrã de avaliação que mostra o quão bem-sucedida foi a operação. Idealmente, os heróis enviados deveriam preencher a totalidade de um gráfico dividido entre poder de combate, vigor, velocidade, inteligência e comunicação. No entanto, isso raramente acontece.
Quando uma equipa preenche, por exemplo, apenas 60% desse gráfico, entra em jogo um fator de sorte, já que isso significa que existe uma probabilidade de 40% de a missão falhar. Este sistema acrescenta uma dose extra de tensão, mesmo quando acreditamos ter feito a melhor escolha possível. Falhar pode provocar frustração, mas faz parte do jogo.
Pontos positivos (Prós)
Narrativa envolvente, com escolhas que têm peso emocional real
Personagens carismáticas e cheias de personalidade
Elenco de vozes de alto nível, com interpretações marcantes
Universo inspirado em super-heróis, mas com identidade própria
Estrutura episódica que funciona muito bem em formato portátil
Jogabilidade de gestão simples, mas tensa e bem integrada na narrativa
Excelente equilíbrio entre humor, drama e crítica
Pontos negativos (Contras)
Jogabilidade limitada pode não agradar a quem procura mais ação
Fator de sorte pode ser frustrante em algumas missões
Curva de aprendizagem inicial algo exigente
Veredicto
Dispatch foi uma surpresa extremamente positiva. Consegue combinar uma história apelativa para quem gosta de super-heróis com uma jogabilidade que, apesar de simples, funciona muito bem para o tipo de experiência que o jogo quer oferecer. Mais importante ainda, a jogabilidade encaixa de forma natural na narrativa, reforçando o peso das decisões e das consequências. É verdade que as secções de história ultrapassam largamente as de jogabilidade, mas isso é algo expectável num jogo com claras influências da Telltale, onde a narrativa, as escolhas e o impacto emocional sempre foram o centro da experiência. No final, Dispatch é um jogo que sabe exatamente o que quer ser, e executa essa visão com confiança.
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Jorge Loureiro
O Jorge acompanha ferverosamente a indústria dos videojogos há mais de 14 anos. Odeia que lhe perguntem qual é o seu jogo favorito, porque tem vários e não consegue escolher. Quando não está a jogar ou a escrever sobre videojogos, está provavelmente no ginásio a treinar o seu corpo para ficar mais forte do que o Son Goku.
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