Monster Hunter Stories 3 (análise) | Um spin-off com boas pernas para caçar
- por Pedro Gomes
- 18 de março, 2026
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Não é segredo nenhum o facto de que a Capcom está numa rajada de lançamento de títulos maioritariamente bem-sucedidos, tendo encontrado o seu ímpeto através de várias franquias já estabelecidas e um motor, o RE Engine, com o qual têm encontrado grande sucesso, pelo menos no que toca a aventuras mais lineares e não tanto a mundos abertos de grande escala. É um estúdio que está na ribalta e com um nível alto de boa fé junto dos jogadores, algo que se reflete na qualidade dos produtos e no volume de vendas, como é o caso de Resident Evil Requiem, cuja análise podes encontrar na nossa página, que vai batendo recordes de vendas e recebeu imensa apreciação junto dos fãs.
O mundo de Monster Hunter sempre produziu jogos que colocam a ação e as caças no centro das suas atenções, deixando as suas histórias em segundo plano e apenas como elo de ligação entre a escalada de hostilidades entre caçador e monstro, mas há sempre enredos para contar e é para isso que esta série de spin-offs existe. Outra das grandes diferenças é a troca de estilo de combate, optando por abandonar as frenéticas lutas em tempo real e substituí-las por um sistema de combate por turnos, tornando estas tiradas em experiências bem distintas dos jogos principais.
Com os seus dois primeiros títulos a serem lançados de forma exclusiva em plataformas Nintendo, 3DS e Switch respetivamente, estas apenas chegaram aos PCs e consolas como um bundle multi-plataformas em 2024. 10 anos após a sua estreia, esta série tem demonstrado ser capaz de mostrar melhorias claras a cada título lançado, com o objetivo de se tornar um JRPG que cativa não só fãs do género, mas também do universo Monster Hunter que procurem mais caças de qualidade, mas será que o terceiro título, o mais ambicioso até ao momento, está à altura de justificar o investimento num mercado ao rubro?
Versão testada: PS5
Outras versões: PC, Xbox, Switch 2
Género: RPG
Editora: Capcom
Preço: €59.99 (compra mais barato aqui)
Dois reinados em disputa
Em Twisted Reflection, vestimos a pele do príncipe (ou princesa) do reinado de Azuria e capitão dos Rangers, oferecendo a possibilidade de customizar a sua aparência, num momento delicado. O Encroachment, uma misteriosa praga que cristaliza toda a fauna e flora em que toca, propaga-se a ritmo rápido pelo mundo fora, levando a fortes tensões entre dois tronos com posições diferentes acerca do procedimento a tomar perante esta ameaça. Após o reino oposto decidir partir para as hostilidades perante a inação de Azuria, o protagonista é forçado a abandonar a sua terra natal para investigar a gravidade e extensão da situação. Em conjunto com os seus companheiros, o jogador irá viajar por terras consideradas proibidas afim de desvendar o mistério com mais de 200 anos que levou a estas hostis mudanças no ecossistema.

Imagem capturada por Geekinout.pt
A grande inovação perante os jogos que antecedem é a inclusão de um protagonista com voice acting e uma personalidade própria, ao invés de recorrer a ter o nosso Palico a responder por nós. Além disso, a nossa personagem é agora um jovem adulto, longe da criança do título original, algo que permite tornar a narrativa um pouco mais matura e com momentos mais fortes do que previamente foram vistos. Todo o nosso esquadrão recebe o holofote de forma a deixar as suas personalidades brilhar, dando aquela sensação de viajar em terras desconhecidas como um grupo, através das variadas reações perante as maravilhas e terrores que são encontrados. Outra alteração perante os antecessores é a exclusão do nosso acompanhante Palico Navirou, já que este deixou de ter o papel de nosso intérprete, como tinha mencionado, algo que é uma exponencial melhoria, diminuindo imenso o meu nível de frustração sempre que este interagia de forma maioritariamente chata, substituindo-o por Rudy que traz consigo uma personalidade muito mais fácil de digerir e consegue bons momentos ao longo do enredo.
Tendo tudo isto em conta, a história em si é interessante e é ajudada pela panóplia de boas cinemáticas que a tornam fácil de acompanhar, oferecendo diálogo falado em quase todos os momentos das missões principais. Sendo este um JRPG, haviam momentos em que quase podia pousar o comando e ir buscar uns aperitivos para degustar até voltar ao gameplay, mas esta é uma imagem de marca do género e como jogador que já tem alguns títulos do tipo debaixo do cinto, não é coisa que me incomode, contudo, se preferes o estilo mais frenéticos dos Monster Hunter tradicionais, podes apanhar um choque. No entanto, uma boa história por si só não faz um bom jogo se a jogabilidade não acompanhar... e tenho a dizer que, neste aspeto, Twisted Reflection também não desaponta!
Pedra, papel, estoura?
Apesar de haver um maior foco na história, uma das imagens de marca continua a ser as caças e este terceiro título na série não desaponta. Os combates voltam a ser turn-based e incluem um sistema que pode parecer um simples jogo de “pedra, papel, tesoura” com ataques do tipo Power, Speed e Technical, mas envolve muito mais do que isso, já que cada monstro o joga de forma diferente e incluem padrões distintos para decifrar que farão a diferença entre a vitória e a derrota. Mistura a isso ataques de área demolidores que tens de impedir atempadamente, habilidades com efeitos tenazes, diferentes tipos de armas com níveis de eficácia distintos para cada espécie e ainda resistências e fraquezas a diferentes elementos, entre outras mecânicas pelo meio, e acabas com várias decisões para tomar antes e durante o combate: é uma aparente simplicidade que esconde imensa profundidade.

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Se estás familiarizado com os títulos anteriores, MHS3 volta a aplicar o mesmo núcleo para o sucesso, mas, graças à inclusão da nova mecânica de monstros Feral, que obriga o jogador a repensar a sua tática, e outras alterações que reformularam o fluxo dos combates, o resultado é uma jogabilidade refrescada que oferece novos desafios para veteranos da série, ainda que consiga manter aquele sentido de vaga familiaridade. O elenco de monstros é igualmente extenso, desde criaturas das primeiras gerações como Yian Garuga ou Khezu até às inclusões de Rey Dau de Monster Hunter Wilds e Magnamalo de MH Rise, títulos bem mais atuais. Desde ameaças mais ligeiras a outras absolutamente colossais que enchem o ecrã, raros são os encontros principais insatisfatórios, mas a curva de dificuldade leva a alguns solavancos.
Se o teu foco for unicamente na história e não pretendes interagir com as restantes atividades ao dispor, vais inevitavelmente bater com uma parede contra a qual não consegues fazer nada a não ser voltar atrás e dar grind de XP, algo que, aliado à existência de momentos na história em que ficamos interditos de dar Fast Travel e isolado dos nossos companheiros, pode levar a momentos frustrantes: e infelizmente, isso aconteceu-me. Após uma batalha bastante renhida contra um boss, fui transportado sozinho para uma zona na qual monstros me mandavam para o estaleiro com um ou dois ataques mal calculados da minha parte, obrigando-me a duelos com pouca margem de erro e longas barras de vida por desfazer, com o objetivo de conseguir fortalecer-me a mim e aos meus Monsties de forma a reagrupar com os restantes Riders. O que aprendi com esta experiência foi: as side-quests, além do conteúdo secundário disponível, são imensamente valiosas fontes de experiência e devo proceder com mais calma, explorando melhor as zonas para estar adequadamente preparado para o que aí vinha. Ainda assim, prender o jogador numa zona sem alternativa para voltar a zonas mais acessíveis leva a picos de dificuldade e a frustração além da escalada de desafios respeitosa já existente no título.
Vamos chocá-los todos!
Além de Ratha, a tua equipa pode conter 5 Monsties diferentes por entre Elder Dragons, Leviathans e todos os outros tipos existentes neste universo. Para os adicionares ao teu esquadrão pessoal de monstros ferozes, terás que escarafunchar vários ninhos espalhados pelo mundo fora, até obteres aquele ovo que tanto cobiças. Cada região disponível tem biomas diferentes e cada um destes contém uma lista de possíveis ovos que podes obter, além de outros aspetos que te irão levar a eclodir a mesma espécie mais do que uma vez, como habilidades diferentes e também para interagir com o novo sistema de restauração de habitas.
As tocas em si têm algumas variações entre si, como a possibilidade de gerar dois ninhos que duplica a quantidade de ovos que podes resgatar, algumas que garantem a possibilidade de raridades extra aos eventuais monstros que vamos chocar ou até à aparição de Palicos presos em barris que são uma excelente fonte de XP, isto é, se conseguires resgatá-los antes que fujam de ti. Também a ter em conta nestas pequenas excursões é o facto de que meter a mão num ninho que não nos pertence, pode resultar num monstro bem chateado que irá tentar com que saias da sua propriedade de mãos a abanar ou até de forma inconsciente.

Imagem capturada por Geekinout.pt
Para fortaleceres os teus Monsties favoritos e encontrares novos para completar a tua Monstiepedia, as tuas visitas a estas tocas vão ser regulares e, pessoalmente, nunca me cansei de o fazer, porque as recompensas valem bem a pena, além de que uma das melhores maneiras de personalizar e manter a tua party ao nível das várias ameaças que vão aparecendo é ao misturar genes. Ao fazeres isto, consegues resgatar ou trocar habilidades ativas ou passivas para equipar nos teus monstros de eleição, desde novos ataques que acrescentem tipos diferentes, possibilitando contra-ataques, a aumentos de HP e resistências contra certos elementos. Se este é um aspeto útil desta mecânica já tradicional de Monster Hunter Stories, há que admitir que a sua maneira de usar é um pouco frustrante. Apesar de ser fácil filtrar o que queres encontrar, os menus em si parecem lutar um pouco contra o jogador, onde um simples retroceder cancela qualquer filtro aplicado e, mesmo após a mistura bem-sucedida de genes, o voltar a repetir o processo não é a coisa mais intuitiva de se fazer ao início… é algo que precisa de algum QoL no futuro para suavizar o processo.
Caçadas opcionais
Além de seguir a história principal e da rotina para fortalecer os teus Monsties e a tua personagem principal, Twisted Reflection oferece outras distrações que, além de suavizar o dito grind, enriquecem o mundo com alguma variedade.
A principal novidade na terceira entrada da série é a de restaurar habitats, seja ao recuperar espécies que estão ameaçadas devido a um imponente inimigo invasor que isola o único ovo do género, ou ao introduzir novos monstros a biomas nos quais eles não existem. Além de permitir a descoberta de monstros que outrora não estão disponíveis ao soltar a espécie para explorar o mundo a seu bel-prazer, é também possível desbloquear mutações que podem ser boas aquisições para o nosso grupo e avançam o processo de completar o Monstiepedia. É um mecanismo que faz todo o sentido tendo em conta o objetivo dos Rangers em proteger os ecossistemas em termos de worldbuilding e também cria um loop adicional de atividades para o jogador.
Além disso, existem missões secundárias que infelizmente não são muito inspiradas, oferecendo objetivos como procurar um NPC escondido no mapa, caçar um certo tipo de monstros ou entregar um determinado número de ingredientes, estabelecendo por vezes objetivos para motivar a restauração de habitats. São uma boa fonte de experiência e levaram-me a explorar um pouco mais o mapa, sendo fáceis de seguir e completar graças a marcadores que delineavam para onde me tinha que deslocar, mas não são propriamente inovadoras ou memoráveis de todo.
Também existem imensos Poogies, uns porquinhos adoráveis vestidos com fatiotas fofas que já são imagem de marca da franquia, que se encontram escondidos pelas diversas áreas, com alguns bem matreiros de descobrir, e aventuras com cada um dos membros da nossa esquadra Ranger, que acrescentam personalidade a cada um deles e vão sendo desbloqueados progressivamente ao longo da aventura. Há uma boa variedade de atividades para fazer, incluindo também desafios opcionais pelo mapa que são bem exigentes mas que podem ser ignorados até se estar melhor preparado, acrescentando personalidade ao mundo e motivos para desvios da missão principal, que na verdade acabam por ser necessários para evitar situações em que te encontres uns níveis abaixo do desafio oferecido.

Imagem capturada por Geekinout.pt
Um belo mundo por descobrir
O mundo de Monster Hunter Stories 3 tem vários biomas com visuais distintos que estão realizados com um nível muito bom, desde vales verdejantes a desertos áridos, todos eles cobertos de texturas de boa qualidade e entregando um pacote visual lindíssimo com vários pontos fotogénicos que merecem uma boa captura. Os monstros mantêm o design mais cell-shaded dos spin-offs, sem perder a sua entidade e atenção ao detalhe, enquanto que as personagens, sejam humanos, Wyvern ou Palicos, são coloridas e facilmente reconhecíveis, no que considero ser um grande avanço quando comparado com os títulos anteriores, resultando em cinemáticas de alto grau de qualidade.
A banda sonora é igualmente excelente, introduzindo composições novas ou ligeiramente alteradas para alguns dos monstros principais, incluindo imensos temas icónicos de outros títulos no universo, enquanto que as músicas ambientes e de batalha que acompanham bem o local onde se desenrolam e distinguem as várias áreas de jogo. Infelizmente, os monstros Feral só têm uma única trilha sonora e, como se encontram em bastantes pontos do mundo, o seu tema acaba por se tornar repetitivo.
No modo base da PlayStation 5, que foi onde passei as minhas horas com este título, estão disponíveis 3 modos de qualidade, entre os quais escolhi o Balanced, que oferece uma boa qualidade de imagem e 60 FPS. A performance em si não me deu qualquer problema e pareceu consistente durante as minhas horas de jogo, enquanto que em termos de bugs, crashes ou outros problemas do género, também não tenho nada a apontar que tenha azedado a minha experiência.
Prós:
História encantadora que move bem a ação;
Refinamento da jogabilidade trouxe claras melhorias a um núcleo já bem estruturado;
Boa otimização e visuais, num mundo repleto de locais fotogénicos;
Nível de dificuldade exigente, mas recompensante;
Substituição do Navirou por um Palico bem melhor.
Contras:
Missões secundárias desinspiradas e pouco memoráveis;
Momentos que isolam o jogador numa zona sem Fast Travel;
Alguns menus pouco amigos do jogador.
Veredicto
Monster Hunter Stories 3 é mais um passo em frente para a série, oferecendo uma jogabilidade refinada com novas mecânicas que, no seu geral, melhoraram a experiência. Com uma história competente, um elenco de personagens que empregam uma verdadeira sensação de aventura ao título e uma boa dose de desafios duros, mas recompensantes de derrubar, Twisted Reflection é um excelente JRPG que me agradou como fã do universo MH no seu geral. Não é um jogo perfeito e tem algumas arestas por limar, algumas das quais podem ser corrigidas com meras atualizações no futuro, mas demostra que a série está num excelente caminho para se equiparar aos jogos da franquia principal.
Pedro Gomes
Um verdadeiro amante de videojogos desde muito cedo e sendo o seu hobby preferido sempre, o Pedro tenta agora, como um adulto irresponsável, arranjar tempo para uma jogatana quando os seus dois demónios peludos favoritos o permitem.
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